

SERTãomar
Serro
Milho Verde

Seu Vavá
Durante o processo formativo par aa viagem de campo, obtivemos através do Professor Rafael Galante a informação da existência dos sineiros, tocadores dos sinos das igrejas católicas, que executavam verdadeiras melodias, possivelmente como uma herança do som dos tambores que não podiam ser tocados pelas populações negras trazidas ao Brasil. É uma prática quase extinta, mas em algumas cidades de Minas Gerais ainda é possível encontrar sineiros, e Milho Verde foi um destes casos.
Lá conhecemos o Lourival de Jesus Faria, mais conhecido na região como Seu Vavá. Tinha 59 anos à época e trazia uma longa trajetória de participação nas manifestações tradicionais da região: Catopê, Marujada, Meninas de N. Sra. do Rosário, entre outros. Tocava tambor desde jovem.
Mas era também sineiro! Nos explicou sobre os toques de missa e de festejo, os toques de aviso/acontecimentos, como em caso de falecimentos, mas como era quaresma, não pudemos ouvi-lo tocar o sino e nem tambores.
Gentilmente, ele reproduziu com a voz os principais toques do sino, e com as mãos nas pernas, os toques do dobrado e da marcha do catopê e nos encantou! E também nos trouxe um de canto de catopê que acabou entrando no espetáculo.
De uma simplicidade imensa, Seu Vavá é sabedor de muito conhecimento ancestral, nos tocou profundamente!
Quilombo do Ausente

O Quilombo do Ausente foi, talvez, a experiência mais intensa que vivemos, se considerado a equação tempo de permanência X o que vivenciamos, pessoas que conhecemos, coisas que experimentamos. Foi tipo uma semana em um dia!
A pesquisa de campo para “SerTÃOmar” foi toda assim, porque o recurso não nos permitiu uma viagem longa. Mas Milho Verde e seu entorno, realmente, foram intensos!
O nome “Ausente” vem do fato dos habitantes do Quilombo terem migrado de um outro território próximo, o Quilombo do Baú, que fica na Serra do espinhaço. Apesar da migração, os territórios mantêm relações de parentesco e culturais também.
Abrimos nossa visita na casa do seu Durcelino e aprendemos sobre a origem do Quilombo, e também que o sagrado não se divide com qualquer forasteiro que aparece... E entendemos de bom grado a negativa, agradecendo o papo longo, mas sem imagens em vídeo, de alguém que aos poucos foi entendendo que nosso propósito era bem respeitoso.
Há um histórico de apropriação cultural na região, com pontos do catopê sendo utilizados de forma comercial em rede nacional, sem consentimento, que gerou traumas e muita desconfiança. Mas, para além deste fato, Vissungo, não se canta fora de ocasião, ainda mais quando se trata de quaresma! Ainda assim, trocamos um bom papo sobre o Catopê, o qual ele fazia parte a tantos anos.
No Quilombo do Ausente fomos recebidos para o almoço, com pompa, no bar/restaurante Cantinho do Céu, onde José da Conceição Brandão, na região conhecido como Gordo, preparou uma comida incrível pra nós.
Enquanto comíamos conversávamos. Com ele, com o Uiler, com o Arasmim (“é Pomba, ói”), ouvindo sobre as realidades locais, as dificuldades, as oportunidades longe dali, e o vácuo que deixava no peito ter que sair para trabalhar fora.
O Gordo nos trouxe uma lucidez sobre a vida em comunidade que era de emocionar! E para nós ficou suspensa no ar a pergunta: se os jovens saem, quem sustentará a tradição no futuro? “Catopê que tá ausente, no Baú da tradição, quando os filhos desta terra, vão simbora do sertão”, cantou a canção de Leandro Medina, no espetáculo.
Depois, orientou os novos amigos a nos levarem para conhecer outros amigos e parentes. E a conhecer sua mãe, D. Florizia, que tinha a cozinha mais charmosa de toda a viagem! Garfos organizados na vertical entre pregos, utensílios pendurados e organizados por tamanho, fogão de lenha em tabatinga branquinha. Deu pra entender por que o Gordo cozinha tão bem!
E esse encontro com as cozinhas nos quilombos foi, também, um marco na dramaturgia e cenografia de “SerTÃOmar”.
Só gratidão!






















