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SERTãomar

Diamantina

Caminho dos Escravos 
(leia-se escravizados)

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Caminho dos Escravos Escravizados

 

O Caminho dos Escravizados (ajuste nosso), é uma estrada, íngreme, datada do início do século XIX, que liga Diamantina (antigo Arraial do Tijuco) à Mendanha, vilarejo que fica às margens do Rio Jequitinhonha.

 

Foi construída no auge da extração de diamantes e ouro na região e tinha como objetivo facilitar o trânsito seguro das riquezas até o Rio Jequitinhonha, por onde seguiam de barco, e também garantir o abastecimento de Diamantina, pelos tropeiros, com pertences raros vindos de outras localidades.

 

A ideia de fazer o percurso de 23 km e 8h de duração foi sentir as características do local, considerando que foram pessoas escravizadas que construíram a estrada e que, muitas vezes, eram também as responsáveis pela extração dos minérios. O desejo era guardar, no corpo, impressões sobre a natureza, a dificuldade do trajeto e também buscar vestígios, ainda que no encontro entre observação e imaginário, das pessoas que ali estiveram trafegando e construindo o Caminho.

 

As sensações foram fortes e carregadas de emoção. 

Vale ressaltar que o direcionamento das placas de comunicação – assim como o nome do Caminho – ainda estampam o olhar colonialista e racista sobre a experiência da construção e da utilização da estrada, colocando foco nos tropeiros e viajantes, mas nunca em quem teve sua força de trabalho explorada para construí-la. Neste sentido, trafegar pelo Caminho dos Escravizados nos trouxe bastante desconforto.

São João da Chapada

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Dona Maria Miúda

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Ana Afonsa Pereira (in memorian), conhecida em São João da Chapada como Maria Miúda, nos proporcionou um encontro cheio de beleza e alegria!

 

Tinha este apelido porque, segundo contou, quando nasceu era muito pequenina. Tão pequenina que cabia dentro da caixa de sapato de seu pai. A família achou que “não ia se criar”.

 

À época, tinha 80 anos, e nos contou sua vida com detalhes! Muito jovem, com 16 anos, foi para Belo Horizonte para trabalhar e estudar e só voltou para a região com 27 anos, para se casar, após sofrer um grave atropelamento. Desde então vivia em São João da Chapada.

 

D. Maria Miúda era uma das lideranças da Chula (Folia de Reis) da região, junto com D. Maria Macarrão, mas ocupou esse papel quando a Chula já estava com um número bem reduzido de participantes.

 

Sua maneira de narrar sua história de vida, voz, corporeidade e também o momento em que esteve junto a D. maria Macarrão inspirou fortemente cenas do espetáculo “SerTÃOmar”.

 

Soubemos de sua partida poucos anos depois, durante a pandemia. Mas para nós ela viverá sempre, no coração e na cena!

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Maria Macarrão

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Maria dos Reis Bispo Amorim, conhecida em São João da Chapada como Maria Macarrão tinha, à época, 82 anos e, segundo nos relatou, estava com “problemas de memória”.

 

Soubemos pela D. Maria Miúda, que estava com Alzheimer. Seu apelido veio pelo fato de ter se casado com o Macarrão, senhor que tinha este apelido por ser muito alto e magro.

 

Maria Miúda nos levou até a casa da prima, Maria Macarrão, que ficava do outro lado do vilarejo. Elas não se viam havia tempos. Maria Macarrão disse-nos que tínhamos feito um milagre de levar Maria Miúda por lá...

 

Mãe de sete filhos, não sabia ao certo quantos netos e bisnetos, mas o mais velho tinha 22 anos. Viveu no Quartel do Indaiá grande parte de sua vida, e após a viuvez estava morando em São João da Chapada, por cerca de 20 anos.

 

Ao ser indagada sobre a chula, foi categórica: “acabou, né? Só ficou nós duas...” E relembrou o dia em que houve uma filmagem da chula e ela passou mal, desmaiando na praça.

 

E aí a mágica aconteceu! As duas Marias, Miúda e Macarrão, se colocaram a cantar e tocar num prato de ágata algumas canções da Chula, que acabaram por inspirar cenas do espetáculo.

E

las eram primas, tinham um padrinho em comum, e conviviam uma relação de amizade e competição ao mesmo tempo. Foi uma tarde muito divertida e inspiradora.

Infelizmente, não tivemos mais notícias de D. maria Macarrão desde então...

Sineca e Quartel do Indaiá

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O Quartel do Indaiá é um território quilombola certificado pela Fundação Palmares em 2011, mas ainda sem titulação definitiva, localizado no distrito de São João da Chapada, Diamantina/MG.

 

Registros indicam que a região começou a ser ocupada no primeiro terço do século VIII, em função de um posto de fiscalização da Coroa sobre as cargas de diamantes extraídos na região, para diminuir a prática do contrabando e garimpo autônomo.

 

Populações escravizadas fugidas conheciam a região e – segundo moradores do Quilombo – construíram um túnel  para chegar até o Morro Makeba, escondendo-se lá e no túnel, com as cargas roubadas ou contrabandeadas. No início do século XIX, com a desativação do posto de fiscalização, a comunidade negra da região ocupou o território, dando origem ao Quilombo.

 

Ao longo do tempo, a região tem sofrido constantes ações dos grileiros. Sua população vive, majoritariamente, da agricultura de subsistência e ainda enfrentam relativa fragilidade neste âmbito, inclusive pela falta da titulação definitiva. Durante muito tempo, parte da população do Quartel do Indaía foi reconhecida como “Apanhadores de Flores Sempre-Vivas”, atividade reconhecida pela ONU como Patrimônio Agrícola Mundial, mas a criação do Parque Nacional das Sempre-Vivas, em 2002, restringiu fortemente a atividade em função das regras de proteção ambiental, que dificultam o acesso aos campos rupestres onde colhiam as flores, evidenciando um conflito socioambiental sobre o direito ao uso do território tradicional.

 

Nosso “portal” para o Quilombo foi Helena Maria Vieira dos Santos, a “Sineca”, que além de liderança na região, era filha do seu Pedro de Alexina, profundo conhecedor dos Vissungos, e protagonista do Documentário “Terra Deu, Terra Come”. Os Vissungos foram um dos temas importantes na criação de “SerTÃOmar”.

 

Bastante reservados, em especial quando o assunto é este tema, nossa incursão pelo Quartel do Indaiá ficou no âmbito da casa e Família de Sineca, onde tomamos um café feito no fogão de tabatinga e ouvimos canções da tradicional Folia de Reis (Chula) da região. Não tivemos acesso aos Vissungos. Sineca também nos ensinou brevemente alguns passos do Lundum de pau.

 

Contato Sineca: whatsapp (38) 99977-1969

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