

Micelial - Raízes em Conexão
chão raiz / pernambuc0

A pesquisa de campo para criação de “Chão-Raiz”, de Andrea Soares, foi a segunda etapa da viagem de “Micelial- Raízes em Conexão”, e aconteceu entre 28/03 e 05/04/22, tendo depois uma viagem autônoma, por conta da artista, para vivenciar rituais indígenas que não foram possíveis de presenciar dentro do cronograma do edital.
“Chão-Raiz” já estava em processo de pesquisa desde 2019 pela autora. As auscultas com familiares começaram bem antes do projeto em si tomar corpo, e já havia sido feita uma primeira gravação e áudio e vídeo no final de 2020.
Desta forma, já havia uma mínima clareza do que se buscava em torno de indícios sobre uma ancestralidade indígena – a trisavó Aguida – e uma bisavó preta – Teotônia. Restava buscar evidências destes rastros invisibilizados ao longo das gerações e, se não fosse possível encontrá-los, inspirar-se nas possibilidades que as hipóteses poderiam construir no imaginário.
E assim percorremos as cidades de Pesqueira e Buíque/PE, visitando as Terras Indígenas Xukuru e Kapinawá, respectivamente nestas cidades, e alguns distritos como Guanumbi (São Domingos) e Salobro, onde visitamos cartórios e paróquias em busca de registros mais concretos sobre a origem dos bisavôs paternos.
Nesta jornada, também couberam mais algumas visitas para conversar e registrar mais alguns parentes e a Fazenda Barreiros, lugar de tantos vestígios ancestrais e memórias de infância e juventude para a artista.
Vestígios Ancestrais

A pesquisa de campo para criação de “Chão-Raiz”, de Andrea Soares, foi a segunda etapa da viagem de “Micelial- Raízes em Conexão”, e aconteceu entre 28/03 e 05/04/22, tendo depois uma viagem autônoma, por conta da artista, para vivenciar rituais indígenas que não foram possíveis de presenciar dentro do cronograma do edital.
“Chão-Raiz” já estava em processo de pesquisa desde 2019 pela autora. As auscultas com familiares começaram bem antes do projeto em si tomar corpo, e já havia sido feita uma primeira gravação e áudio e vídeo no final de 2020.
Desta forma, já havia uma mínima clareza do que se buscava em torno de indícios sobre uma ancestralidade indígena – a trisavó Aguida – e uma bisavó preta – Teotônia. Restava buscar evidências destes rastros invisibilizados ao longo das gerações e, se não fosse possível encontrá-los, inspirar-se nas possibilidades que as hipóteses poderiam construir no imaginário.
E assim percorremos as cidades de Pesqueira e Buíque/PE, visitando as Terras Indígenas Xukuru e Kapinawá, respectivamente nestas cidades, e alguns distritos como Guanumbi (São Domingos) e Salobro, onde visitamos cartórios e paróquias em busca de registros mais concretos sobre a origem dos bisavôs paternos.
Nesta jornada, também couberam mais algumas visitas para conversar e registrar mais alguns parentes e a Fazenda Barreiros, lugar de tantos vestígios ancestrais e memórias de infância e juventude para a artista.
por Andrea Soares
terras indígenas

Terra Indígena Kapinawá
Como é possível uma pessoa visitar uma região por tanto tempo – leia-se desde nascida – e simplesmente desconhecer a presença de povos indígenas no entorno?
É bem verdade que a tentativa de apagamento das culturas indígenas da região de Buíque não é recente, e que muita violência fez parte deste processo, ao ponto de as pessoas não poderem se identificar como tal, sob risco de morte. Mas isso é só mais uma constatação sobre um projeto político de apagamento.
Foi na segunda visita ao Parque Nacional do Catimbau, no primeiro decênio dos anos 2000, que Andrea Soares descobriu uma associação, onde havia guias indígenas. Mas durante o passeio essa existência e costumes não eram “assunto”.
De alguma forma, o Catimbau sempre impressionava pelo “mistério”, e a busca por sua ancestralidade, oriunda da observação de fenótipos em fotografias antigas, cultivou o desejo de conhecer mais sobre essa realidade, que se tornou possível com o projeto “Micelial- Raízes em Conexão”.
A Terra Indígena Kapinawá possui cerca de 12400 hectares, ocupando trechos das cidades de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim, e parte do Parque Nacional do Catimbau, ou Vale do Catimbau, como é popularmente conhecido. A TI tem um total de x aldeias, dentre as quais visitamos a Mina Grande, que é uma espécie de “aldeia mãe”, a Aldeia Malhador e a Aldeia Colorau.
Na aldeia Mina grande, conhecemos o Pajé Caetano, liderança religiosa de toda a TI, e D. Lilia do Coco, guardiã das cantigas e dança do coco e auxiliar do seu Caetano dos Torés. E pudemos usufruir de uma sambada de coco com a comunidade. Conhecemos também o professor indígena Ilto Kapinawá, que foi super receptivo e nos ajudou nas entrevistas e organização com as outas lideranças da Aldeia.
Na aldeia Colorado, estivemos para entrevista com o Cacique Robério Kapinawá e Na Aldeia Malhador, onde moravam nossos guias Ronaldo e Israel Kapinawá, conhecemos o pai deles, Seu Audálio, homem sábio sobre a religiosidade da Jurema, sobre o poder de cura das plantas regionais, do qual é profundo conhecedor, além de cultivar abelhas e mel com maestria, na companhia dos filhos.
Foram dias transformadores, sendo também a primeira troca do Núcleo Pé de Zamba com culturas indígenas in loco, um desejo antigo, se concretizando.
Para saber mais sobre os Kapinawá:
Kapinawás: meio século de luta pelo território sagrado no Vale do Catimbau
O Tempo e a Terra: Mapeando o Território Indígena Kapinawá
Instagram Audiovisual Povo Kapinawá
Contato:
Ilto Kapinawá: 87 99929-8746
Bruno Kapinawá: 87 99916-6656
Cacique Robério Kapinawá: 87 99917-1383


Terra indígena Xukuru
Nas entrevistas empreendidas antes deste projeto começar, Andrea Soares conseguiu rastrear a existência de sua trisavó Aguida, indígena, não se sabe de onde, nem de qual povo.
Sabe-se que, ao ser raptada e gerar filhos com um homem de posses de Pesqueira, habitou a região de Salobro, distrito daquela cidade do agreste pernambucano, cuja zona rural D. Isabel, a avó da artista, nasceu e cresceu. Sabe-se também que Santa Agueda é a padroeira e Pesqueira, que é o município onde está, majoritariamente, localizada a Terra Indígena Xukuru de Ororubá, que também ocupa parte do município de Poção.
Todas estas informações geográficas e a coincidência do nome branco de sua trisavó com o da Santa padroeira, traz alguns indícios de uma possível ancestralidade Xukuru de Ororubá, que certamente jamais poderá ser confirmada de fato. Mas como o assunto aqui é criação cênica, e a liberdade poética abre as asas da imaginação, conhecer o Povo Xukuru de Ororubá fez um imperativo, inclusive pela incrível trajetória de luta e construção de um território fortalecido através da consciência política e da educação.
A Terra Indígena Xukuru de Ororubá foi demarcada e 2001, desde então os indígenas tem trabalhado fortemente na recuperação das terras degradas pela exploração agrícola e pecuária ao longo de séculos, e se transformado em referência neste âmbito, inclusive no que tange à utilização de plantas medicinais, processo que despertou interesse de órgãos como a Fundação Oswaldo Cruz.
A luta, segundo o Cacique Marcos, nunca sessou, mas as armas agora são os livros. A diretriz principal é garantir a formação de educadores indígenas que saem, estudam, tornam-se professores e pesquisadores, e voltam para prover as escolas indígenas da TI com uma educação indígena altamente elaborada, numa visão de futuro invejável!
Nossa incursão pelas Terras Indígenas Xukuru se restringiu a Aldeia Santana, onde presenciamos as pinturas corporais sendo feitas para a viagem para o Acampamento terra Livre – ATL, em Brasília. Ali vimos também as barretinas, adereço usados pelos indígenas em situações ritualísticas ou de luta, e entrevistamos o jovem Pajé Márcio, que estava sendo preparado para substituir o Pajé Zequinha, à época com 92 anos, que morava na cidade de Pesqueira, onde o entrevistamos (corta pra lembrança dele acendendo o cachimbo e “meditando” antes de começar a falar com os forasteiros...)
Fomos também na Casa das Sementes, que fica na Aldeia Boa Vista, local onde são guardadas as sementes selecionadas para a manutenção das espécies locais, e onde o grupo de teatro da TI ensaiava.
Na Aldeia São José, fomos conhecer a D. Nina (maria das Graças), de 71 anos, exímia rendeira de renda renascença, que é uma das muitas rendeiras indígenas da região, uma tradição que surgiu do trabalho exploratório das famílias, que davam os materiais e pagavam nada ou quase nada pelo serviço. Hoje as artesãs já conseguem produzir as próprias peças e se projetar enquanto artistas.
Toda nossa experiência na Terra Indígena Xukuru foi intermediada pela liderança Silvinha Xukuru, uma jovem educadora, que também é atriz do grupo e atua na administração da educação indígena da TI. Ela também foi cicerone de Andrea quando voltou, por conta própria, para presenciar a Festa de Nossa Senhora da Montanha, no dia 02/07/2022.
Para saber mais sobre o Povo Xukuru de Ororubá
Povo Indígena Xukuru do Ororubá: uma história de mobilizações por afirmação de direitos
História, território e resistência do povo Xukuru do Ororubá
Instagram Associação Xucuru Ororubá
Instagram Educação Indígena Xukuru de Ororubá
Povo Indígena Xukuru do Ororubá: uma história de mobilizações por afirmação de direitos
https://www.scielo.br/j/rdp/a/MCvrByLpTnMYZfq8vhyjgjR/?lang=pt

Pela Rota

As paisagens vivenciadas nesta parte da pesquisa eram muito parecidas, nas estradas, vegetações e na fazenda também.
Mas há um destaque para o Vale do Catimbau, onde hoje está o Parque Nacional do Catimbau, local que abriga escritas rupestres de mais de 6 mil anos, e fica ano município de Buíque.
Andrea Soares já havia visitado o Parque outras vezes, e a cada nova visita, vinha com um olhar diferente para a região e seus habitantes. Mas em todas elas, se sentia tocada pelo local num nível de “comunicação” que não era racional. Digamos que estava mais no campo quântico, mesmo quando a guiança era um pouco distanciada desta percepção, e aproximada do padrão “turístico” usual.
Considerando que o objetivo era conhecer os povos indígenas da região, e sabendo que os Kapinawá atuavam como guias no Parque, contratamos o Ronaldo Kapinawá por ser indígena e, depois, descobrimos que ele era, também arqueólogo e educador indígena na sua comunidade. Então lhe pedimos um passeio que nos levasse a conhecer aspectos importantes da ancestralidade de seu povo e que fossem permitidos de serem partilhados conosco.
Que aula! Foi uma vivência incrível!
Sobre plantas, sobre locais sagrados onde, sob perseguição, sobre como se reuniam secretamente para cultivar sua espiritualidade, sobre as plantas e sua utilidade para a saúde e o equilíbrio psicofísico, sobre a relação sagrada com tudo que ali existe e, claro, sobre as escritas rupestres!
Aprendemos sobre alimentos de subsistência resistentes à seca, comemos o coquinho do Ouricuri, e a sua folha, uma espécie de palha em forma de canoa, virou cenografia do espetáculo (mas não foi retirada do Parque!), assim como a planta caroá, da família das bromélias, que dá uma palha usada por eles para fazer adereços e roupas, fez parte dos figurinos.
Conhecemos também a árvore da jurema preta, planta sagrada que fundamenta o ritual da Jurema, e outras plantas curativas da região, como a fedegoso.
Uma experiência intensa e reveladora de como os povos indígenas, conhecedores da natureza, tem a potencialidade de restaurar o equilíbrio do meio ambiente através dos seus saberes.
As Pinturas Rupestres do Vale do Catimbau: Um Legado Pré-Histórico no Nordeste Brasileiro
Arqueologia: Patrimônio pré-histórico
Contato Ronaldo Kapinawá: (87) 98139-3015

































































































