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Frei Xico

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Francisco van der Poel, o Frei Chico, ou Frei Xico, como costumava escrever, cresceu no nosso imaginário antes mesmo da gente conhecê-lo, tamanha foi sua importância para a região e o povo de Araçuaí. Na conversa com D. Lira Marques, a presença dele como alguém que abriu portas e realizou coisas junto era imensa, ao ponto de alguns de nós, de certo modo, desconfiarmos das suas ações por lá, num âmbito talvez de apropriação.

 

Mas, nos primeiros instantes de conversa com Frei Xico, já seu universo de criatividade, movimento e desejo de transformação se fez tão presente, que qualquer desconfiança rapidamente se transformou em maravilhamento! E estávamos falando de um homem às vésperas dos 80 anos...

 

Um frei holandês, que migrou para o Brasil em 1967, plena ditadura militar, para a região, à época, mais pobre do país, e referenciada assim no mundo. Em Araçuaí, foi “invadido” por uma realidade cultural tão intensa e viva, que se apaixonou pelo seu povo e dedicou-se, por anos a fio, a catalogar suas sabenças de todo tipo, com o apoio e atuação em campo de D. Maria Lira Marques, jovem integrante do Coral Trovadores do Vale, criado pelo Frei Xico para cantar na Igreja de N. Sra. do Rosário, onde foi pároco por vários anos. Esse trabalho conjunto deu origem, entre outras coisas, ao “Dicionário da Religiosidade Popular”, uma obra de mais de 1000 páginas sobre as múltiplas face das religiosidades do Brasil.

 

Ouvi-lo nos contar de como saiu do seu cômodo, no meio da madrugada, em plena festa, para pedir que os Tamborzeiros de N. Sra do Rosário parassem de tocar para que pudesse dormir e, quando viu, amanheceu o dia no batuque, foi um deleite.

 

Conhecer o “Pensamento Redondo”, e o seu caderno de criação, onde esboçava os veios de cada assunto sem deixar espaço para a racionalidade limitar as fronteiras do pensamento foi realmente, algo divino, que até hoje nos acompanha em nossos momentos de criação.

 

Saber que, além de Frei, também se fazia palhaço, o Fuxico, que ele materializou num bonequinho de pano, que carregava consigo para todo canto e pendurava no cordão que amarrava na cintura quando vestido com o hábito de Frei foi arrebatador.

 

Sua ausência é, sem dúvida, um vácuo na luta pela manutenção das culturas tradicionais não só de Araçuaí, mas de toda a região do Médio Jequitinhonha, mas o legado fica!

 

Gratidão demais por termos tido o privilégio desta troca!

 

Paz e Bem, sempre, Frei Xico!

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