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Micelial - Raízes em Conexão

CUrare - Maré de Memórias / PARÁ

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Última etapa da viagem de pesquisa para “Micelial – Raízes em Conexão”, a chegada à Belém do Pará tinha uma necessidade de fôlego! Mas também um desejo grande de circular por uma região que, para maioria do grupo, estava sendo visitada pela primeira vez. E o Norte do Brasil é muito peculiar! 

 

Nesta etapa, depois de tantos dias dividindo quartos e tendo que cultivar uma intimidade, locamos uma casa secular, reformada, no centro da cidade, e tivemos o privilégio de ter quartos individuais.

 

“Curare – Maré de Memórias”, solo de Leandro Medina, tinha também um recorte bem centrado nas histórias de família, veladas ou não, e um desejo de mergulhar na lembrança de ocasiões vivenciadas em família que deixaram marcas e exigiam curas!

 

Assim, entre os dias 18 e 28/04/22, circulamos por Belém, Ananindeua, Ilha de Mosqueiro e Bragança, cultivando encontros familiares para colher as narrativas sobre estes acontecimentos que Leandro não vivenciou, ou que vivenciou ainda muito criança, mas cujas reverberações acompanharam seu crescimento. 

 

Ao mesmo tempo, buscando elementos corporais e musicais, conversamos com lideranças religiosas do Nokon o Jijó Nankó Kwê, terreiro de tradição Mina em Ananindeua, e com a Marujada de São Benedito, de Bragança.

 

Como forma de unir passado e presente, revisitamos as ruínas de sua casa de infância, e outros locais da cidade de Belém que marcaram a vida de sua família, e que marcaram também os olhos e coração do Núcleo Pé de Zamba, que se encantou com a beleza da cidade.

Vestígios Ancestrais

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“Curare – Maré de Memórias” foi uma pesquisa artística e afetiva realizada por Leandro Medina a partir de uma imersão nas cidades paraenses de Belém, Ananindeua e Bragança, percorrendo territórios atravessados por memórias familiares, saberes populares, espiritualidade e imaginários da floresta.

 

O ponto de partida dessa investigação são os caminhos ancestrais de sua avó, Izaura Medina, curandeira, benzedeira e erveira amazônica, mulher detentora de conhecimentos sobre as plantas, as rezas, os cuidados com o corpo e as forças invisíveis que habitam o território amazônico. Ao revisitar esses caminhos, Leandro mergulha também em uma memória que atravessa gerações e que permanece inscrita em seu próprio corpo e em sua trajetória artística.

 

A pesquisa encontra na encantaria amazônica, especialmente nas referências à chamada encantaria turca, um importante território de investigação. Trata-se de um universo espiritual presente em tradições de matriz afro-indígena, como o Tambor de Mina e a pajelança, no qual os encantados — entidades que, segundo essas tradições, passaram a habitar outros planos sem necessariamente morrer — povoam rios, matas, praias e outros lugares de força. Entre essas narrativas estão as histórias das princesas turcas, figuras que teriam fugido de guerras, atravessado portais mágicos e se tornado encantadas na Amazônia.

 

Esse universo de mistérios não é, para Leandro, uma descoberta distante. Ele faz parte de sua memória de adolescência, vivida em Ananindeua, quando percorreu algumas importantes casas espirituais e teve contato com diferentes manifestações da religiosidade popular amazônica. Foi nesse período que conheceu a Cabocla Mariana, uma das princesas turcas cultuadas nesse universo de encantaria, personagem que passou a ocupar um lugar significativo em seu imaginário e a alimentar sua relação poética com as crendices, os mistérios e as forças da mata.

 

Outro importante vetor da pesquisa é uma memória familiar marcada pela perda. Leandro revisita a morte de seu primo João Batista, aos 11 anos, vítima de afogamento na praia do Chapéu Virado, na Ilha de Mosqueiro, onde a família possuía uma casa de veraneio. A lembrança ganha uma dimensão ainda mais profunda porque, segundo a memória familiar, sua avó Izaura teria pressentido o acontecimento e, por diversas vezes, impedido que o neto fosse à praia, afirmando que ele não retornaria.

 

Entre a memória e o mistério, entre aquilo que pode ser explicado e aquilo que permanece como enigma, “Curare – Maré de Memórias” investigou as marcas deixadas por essas experiências na formação de Leandro. A pesquisa não busca comprovar ou explicar os fenômenos da espiritualidade amazônica, mas escutar suas narrativas, reconhecer seus símbolos e compreender como esses saberes continuam atravessando a memória, a cultura e o imaginário de quem nasceu e cresceu nesse território.

 

Percorrer Belém, Ananindeua e Bragança é, portanto, percorrer também uma geografia íntima. São caminhos que conectam a infância à vida adulta, a avó ao neto, o mundo dos vivos ao universo dos encantados, a floresta à cidade e a experiência individual à memória coletiva.

 

“Curare” nasce desse encontro entre pesquisa, memória, ancestralidade e criação artística, buscando transformar vestígios do passado em matéria poética para compreender o presente. É uma viagem pelos caminhos que permanecem — mesmo quando aqueles que os abriram já não estão fisicamente entre nós.

pela rota

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A ida a campo para “Curare” trouxe uma ampla diversidade de experiências e deixou aquela “agonia” de não poder estar mais, vivenciar mais, deixar-se atravessar pela experiência com mais qualidade. Não só pela beleza e novidade de alguns lugares e comunidades visitados, mas especialmente pelo chamado à pausa que algumas circunstâncias traziam.

 

Assim, para além do foco mais específico da pesquisa, centrado no âmbito familiar e ancestral de Leandro, buscamos outras experiências que atravessam sua pesquisa de artista e que nutriram a criação do espetáculo.

 

Assim tivemos o carimbó do Grupo Sancari, na Feira do Açaí, em Belém. O banho de rio, que é quase mar, em Mosqueiro, visitas a diferentes pontos históricos da cidade de Belém, incluindo os centros educacionais onde Leandro estudou, o Mangal das Garças, com a exuberância da natureza do Norte, e o Mercado Ver-o-peso, onde conversamos e nos deliciamos com as sabenças ancestrais de Beth Cheirosinha, tradicional vendedora de ervas e preparados para cura de todos os tipos.

 

Houve ainda a experiência incrível de ir a Bragança, já mais próxima do Maranhão e de lá conhecer a praia litorânea de Ajuruteua, que era uma lacuna vivencial juvenil de Leandro, que não pode conhecê-la antes, embora soubesse de sua existência.

 

E as comidas, as cores, os costumes do Pará que em tantas coisas se diferem do que temos como costumes generalizados no Brasil. Uma experiência riquíssima sobre diversidade, dentro deste País de dimensões continentais! 

Nokon o Jijó Nankó Kwê

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A casa “Nokon O Jijó Nankó Kwe”, localizada em Ananindeua/PA, foi fundada em 19 de maio de 2011, e tem como mãe de santo Divana Karlla Pegado – Gàniyákú Avesansi Massobê, do candomblé Jeje Savalu. 

 

Em 05 de setembro de 1991, aos doze anos, Divana Karlla Pegado foi iniciada no candomblé Jeje Savalu, fez o santo pelas mãos de Doté Omineran, ou Rozenildo Silva Ribeiro, popularmente conhecido por Baba Omineran, do Húnkpàme Ederè Ahó, sendo neta neta de Hungbono Carlinhos Dabosi, conhecido como Carlinhos de Oxum do Hunkpáme Karé lewi, em Salvador-Bahia. Atualmente é conhecida no meio afro-religioso como Mãe Karlla Pegado ou Oyá Massobê, ou Gàniyákú Avesansi Massobê. 

 

Desde a data da sua criação, a casa vem realizando festas de candomblé e de encantados, caboclos, abertas ao público, seguindo um calendário afro-religioso da família do candomblé Jeje Savalu, com datas específicas durante o ano. 

 

Mãe Karlla Pegado é também nutricionista, especialista em nutrição clínica, e faz rodas de conversa, palestras e cursos com a comunidade religiosa, que vão desde mitologias africanas, dos orixás, até cuidados com a saúde e alimentação, unindo sua profissão à sua atividade espiritual. Tem, também, experiência com povos tradicionais da Amazônia (indígenas e de terreiro), e com alimentos usados nessas culturas. 

Marujada de São Benedito

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Na cidade de Bragança, no Pará, fica sediada a Marujada de São Benedito, cujos registrados demarcam seu início em 1798, ou seja, cerca de 228 de existência. Há algum tempo comandada por mulheres, estando sob a liderança da Capitoa Bia, é uma das principais atrações da festividade ligada à São Benedito, um dos santos de devoção católica da cidade, que tem como padroeira Nossa Senhora do Rosário.

 

Uma das singularidades da Marujada de São Benedito é sua proximidade com as culturas ancestrais afrodescendentes presentes da região, que é o que a diferencia das demais marujadas do entorno, dado que reafirma a ligação da cidade com os dois santos católicos intimamente conectados às populações negras em todo o Brasil.

 

O ponto forte da participação da Marujada na Festa é o dia 25/12, onde marujos e marujas vestem azul e branco e vermelho e branco, festejando o nascimento do Menino Jesus e no dia seguinte, vestem somente vermelho e branco, em homenagem São Benedito.

 

Durante o festejo, músicos executam os diferentes ritmos, que dão suporte às danças que são realizadas num barracão sede, em pares, com marujos e marujas. Entre os instrumentos tocados estão rabeca, pandeiro, cuica, banjo e tambores.

 

Por conta do cronograma do Projeto, não nos foi possível estar nos dias originais da festa em Bragança, mas as Capitoa D. Bia e Vice Capitoa Aleuda nos receberam com alegria e indicaram pessoas para entrevistar e até se reuniram com seus pares para nos mostrar algumas evoluções do retumbão.

 

Pudemos tocar e dançar um pouco, e nos maravilhar com essa tradição inspiradora. Um dia voltaremos para a festa!

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