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Micelial - Raízes em Conexão

IRRADIANTE / CEARÁ
 

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Irradiante, espetáculo de Fabricio Enzo, foi ancorado na ancestralidade de sua família materna, oriunda da região do Crateús, Ceará, em especial nas lembranças trazidas por ela sobre os “Caretas”, nome dado aos Reisados da região. 

 

Na terceira etapa das viagens do “Micelial – Raízes em Conexão”, tínhamos como foco a cidade de Santa Quitéria/CE, local onde nos detivemos por maior tempo, e algumas cidades do entorno, como Novas Russas, Tamboril e Catunda, e também, outras cidades mais distantes, como Crateús e Reriutaba.

 

Realizada entre os dias 08 e 16/04/22, a viagem circulou, majoritariamente, em torno do reencontro com familiares e com lugares e pessoas que habitaram as narrativas da mãe de Enzo sobre sua origem, que revisitou o local agora com o objetivo de buscar subsídios para criar o seu espetáculo.

 

Mas a pesquisa também trouxe um forte recorte em torno do Reisado de Caretas que, na região, luta bravamente para manter-se vivo enquanto tradição, reinventando-se dentro das dificuldades como a falta de apoio do Poder Público Local e o desinteresse da juventude em perpetuar estes saberes ancestrais.

 

Foram dias intensos e, em alguns momentos, surpreendentes.

Vestígios Ancestrais

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Quando se há uma distância muito grande entre as pessoas que partiram e as que ficaram, o caminho que para algumas chama-se caminho de volta, para outras torna-se caminho de ida. O que para algumas é o momento do relembrar, para outras torna-se o momento de conhecer, mas o encantamento segue sendo encantamentos para todas, e a admiração no olhar de quem vê o novo ou revê o antigo brilha tão parecido em cada par de olhos distinto.

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Ir e voltar a um território ancestral é a oportunidade de se reconhecer no desconhecido, ver o quanto de você nasceu ali, mesmo que o seu nascimento tenha se dado num lugar a léguas e léguas dali. (Re)Conhecer o território de origem dos nossos, e (re)conhecendo-os ali, ver também como os nossos estão em todos os territórios do mundo.

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Assim é a viagem de ida, ou retorno, para o Ceará, uma viagem marcada por elementos que eram ao mesmo tempo conhecidos e inéditos. Imaginações que ali, no momento presente, se tornaram imagem concreta e imagens concretas que deram asas à imaginação.

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E é no encontro desses aspectos tidos frequentemente como antagônicos - o conhecido e o novo; a imaginação e a concretude; a tradição e a modernidade; os vínculos criados pelo destino e aqueles que escolhemos criar - que nasce o Irradiante. Olhando para o que há de distinto, mas principalmente para o que há de semelhante nessas realidades múltiplas: o desejo pulsante e vivaz de celebrar a vida.

 

Então é uma viagem marcada pelo brilho no olhar, pelos risos e pelos festejos. Enfim, pelas inúmeras e diversas formas que cada pessoa e grupo tem de levantar o Coração.

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Por Fabricio Enzo

pela rota

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O trânsito pela região pesquisada para a montagem de “Irradiante”, nos proporcionou muitos quilômetros rodados. Isso porque a cidade que nos trazia as melhores condições de hospedagem era Santa Quitéria, mas ela não foi o local que abrangeu a maior parte das entrevistas e visitas.

 

Neste trabalho, boa parte do que vivenciamos estava ligada à família do Enzo que se espalhava em diferentes cidades da região, nos fazendo ir e vir, diariamente, para as cidades envolvidas na pesquisa, com trechos que variaram entre 30 a 80 km de distância.

 

O Bioma da região é a caatinga, mas tivemos o privilégio de estar por lá num período de fortes chuvas, e de presenciar a caatinga verdejante e tomar banho de rio. Houve também momentos de tensão no volante, por conta da força das tempestades que presenciamos em alguns momentos, na estrada.

 

É de praxe nas nossas idas à campo estarmos abertos ao inusitado, ou a mudanças de planos quando nos parece mais conveniente e útil à pesquisa. E foi neste ímpeto que, ao passarmos por Canindé, a caminho de Santa Quitéria, paramos para conhecer a Quadrilha Junina Streytho (https://www.instagram.com/quadrilhastreytho/) , que estava ensaiando numa quadra da cidade, bem na nossa rota.

 

Mesmo tarde, mesmo cansados, paramos para prestigiar o ensaio e conhecer um pouquinho das práticas de dança e de inclusão da quadrilha. Um trabalho incrível junto a comunidade, que em 2027 completa 30 anos.

caretas

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Os Reisados ou Folia de Reis são uma manifestação da cultura tradicional brasileira ligada ao Ciclo Natalino, com forte conexão como catolicismo, estando conectadas aos festejos do nascimento de Jesus e, neste caso especificamente, a jornada dos 3 Reis Magos até o local de nascimento do menino, para entregar-lhes os presentes. 

 

Encontrada em todo território brasileiro, os Reisados vão assumindo peculiaridades que moldam sua singularidade, dentro deste tema maior recebendo nomes diversos. Na região do Crateús, Ceará, o nome mais usual das Folias de Reis é “Reisado de Caretas”, ou simplesmente, “Caretas”.

 

A manifestação é composta por música, dança e representação, e traz como forte figura a presença do Boi, animal preferido de um “Capitão”, dono da fazenda, que é morto por um “Vaqueiro”, e depois ressuscitado, para alegria de todos. O enredo é também semelhante a outras manifestações pelo Brasil, como o Cavalo Marinho de Pernambuco.

 

Os “Caretas” com quem tivemos contato não são um “grupo”. Na verdade, são pessoas que cresceram numa mesma região, o Morro Redondo, distrito de Tamboril, onde havia um brincador de reisado muito famoso e bom no que fazia. Era o pai do Seu Santana, que entrevistamos.

 

Com a morte precoce do pai, seu Santana, ainda menino, assumiu os Caretas da região e brincou com outros jovens do entorno por muitos anos, até apresentar questões de saúde que o impediu de dançar. Ele era o “Velho”, uma espécie de mestre de cerimônias que conduzia a dramaturgia da brincadeira e, na impossibilidade de brincar, passou esse personagem para o Chagão.

 

Como tempo e o fim da prática por lá, Chagão (Francisco das Chagas Souza Lopes) e Dilton do Acordeom (Francisco Carvalho de Souza), já morando em Novas Russas, passaram a brincar com outros grupos locais.

 

Para que conhecêssemos a brincadeira, e como era fora da época natalina, estas pessoas e mais outros convidados se reuniram da casa de Chagas filho, hoje morando no Morro Redondo de novo, para apresentar seus caretas. 

 

Vale salientar que estas pessoas envolvidas fizeram parte das vivências e memórias da mãe de Enzo, Maria Oliveria que, morando em São Paulo, transmitiu ao filho as cantigas e narrativas dos caretas, em sua infância, e por isso era tão importante reconectar com os “Caretas” daquele território.

 

Hoje em dia o Reisado de Caretas não é mais itinerante, de casa em casa, dentro da comunidade. Eles se apresentam em “quadra fechada” cobrando ingresso, ou participando de concursos com premiação.

 

Segundo os entrevistados, para acontecer, precisa de pelo menos 6 caretas: “Velho”, o “Doutor”, o “Poeta”, a “Velha”, e o “Cassuleta” e o matador do Boi, Aí vem o “Boi”, a Burra, os “Índios”, e os tocadores que fazem a música.

 

Nossos agradecimentos ao Seu Santana, ao Seu Chagas, ao Chagão e ao Dilton do Acordeom, pelas entrevistas e pela apresentação dos Caretas, e também a todos os participantes dos Caretas que não tivemos a honra de conhecer mais de perto!

 

Não encontramos referências específicas sobre os Caretas da região que visitamos, apena suma pequena matéria do encontro em Novas Russas.

Brincantes encerram reisado com apresentação em Nova Russas

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